De volta ao mar. O inevitável. Um afogar em ondas tranqüilas que se esvai com águas de alma. Cada um de nós já teve o seu embalo nas profundezas desses abismos de luz... Cada um teve sua rocha, seu jeito peculiar de dar boa noite, de dizer adeus. Cada um teve sua estrela, seu tipo de bolo predileto, seu cacoete. Cada um tem seu jeito doce de desafinar nas horas incertas, de acertar o alvo quando se é noite, de entoar ditirambos pra afogar o sangue. Sim, todo homem tem sua asa; toda mulher tem sua ecdise. Porque somos pó, somos infindos diante deste plano que aos poucos se apodrece, pra depois virar jorro de luz. Luz de treva, luz de anjos, luz de caos. E quem sabe o transe, quem sabe o livre, quem sabe a maneira certa de se dizer o que se sente, de se dizer adeus ao alguém que, tão sereno, se foi. E você acaba se tranqüilizando, porque no “fim” de tudo aquilo você deu o último abraço. Renato, você amou... E toda essa tristeza não precisa vir em lágrimas. Meu, não precisa se sentir a pior pessoa do mundo porque seus olhos não salivaram como você queria. Sim, velho, é isso, é a forma de cada um lidar com seus delírios, com suas loucuras, com suas dores, com suas melodias internas, com seu jeito enferrujado de escrever sobre amores, sobre oceanos, sobre versos escondidos, sobre despedidas. Ah, Renato, é tanta coisa... é tanta estupidez, é tanta vontade de dar um abraço, de deitar no colo, de voltar ao ventre, de fechar os olhos e esquecer que o mundo depois da janela é teu caminho pro fim, é teu presságio de adeus. Talvez porque tudo seja efêmero mesmo, porque o silêncio não exista, porque a morte seja apenas um sussurro bonito de alguém deveras especial. Pode ser que isso aqui que você chama de chão seja apenas um talvez prolongado. E o começo de tudo seja o depois do nada, o depois do escuro, o depois do fim. Mas vai tudo acabar em asas mesmo. Cada um terá de rumar sua estação, seguir suas runas, cantar seu rumo, carregar as cicatrizes desenhadas pelo caminho. Pra depois regressar ao mar e se embalar em águas tranqüilas, pra nunca mais voltar.
10 Vestígios:
Texto de apenas um parágrafo, suave de ler, de uma melancolia nostálgica como o vai-e-vem das ondas do mar. Nunca perde seu talento. Uma pena eu ter partido por tanto tempo e deixado de aparecer aqui...
Abraços, companheiro!
Ain..sempre arrasando nos Textos...
Sim, somos mais que um interlúdio ou mais que um transe, uma música, uma letra ou um livro. Somos, Renato mais que o que, apenas vemos. Somos oceano, somos o ar, somos tudo e nada nesse infinito.
Amanhã teu novo ano começa ou recomeça um novo ciclo.Lindo o texto
Desejo-te muito.
Abraços e feliz aniversário,
Ziggy,
o início, ali, me lembrou aquela frase que fala sobre cada um deixar um rastro diferente. Perceber que todos têm um jeito certo, preciso, autêntico de enxergar qualquer ponto que seja é perceber que "somos", de algum jeito.
E sobre o adeus, esse louco ensandecido que nos abre a porta pra saudade; o adeus merece um silêncio. É que ele simula o fim, rascunha o ponto final de algo que não necessariamente tem que acabar. Nunca acaba, se quisermos. Expressar essa despedida também tem a ver com o "rastro" de cada um. São os acúmulos de experiências que vão determinar seu jeito de lidar com ela.
Texto bonito, me fez pensar.
Um abraço!
Você sente sua sabedoria mudar depois de ter lido isso.
Vou reler pra aumentar mais ainda.
rsrs
Parabéns mesmo!
Depois que nasce, é só em frente amigo...
Um abraço.
Suave e perfeito...
beijos
Curti, cara! Eu gosto de escrever em blogue pela dinâmica oral que ele sustenta. Ele suspende o formal, mais do que uma crônica o faria, e emprega uma ordem sonora muito gostosa. Ótimo o texto. Valeu a visita!
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eu, hein...
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