Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Nosso Azul

Ah, teus olhos... A imensidão mais bonita em que me perco e me desencontro. Um encontro tão lindo de duas freqüências que se permitem fundir o tom e o cheiro. De alcances e acasos. De almas e mel. O ponto exato onde o universo se torna detalhe e qualquer piscar de olhos teus é um motivo azul pra que eu me esqueça do resto. É marejar de mim e oceano nosso. Ponto sagrado de se abandonar e, por fim, ir. Respirar o gozo e se espalhar em águas aconchegantes. Meu mais belo afogamento. Teu mais suave sereiar. E se é pra se embrenhar em redes e moinhos, vagueio sob a lua de prata. Pois nas noites de calma e desejos suaves, devaneios meus te perseguem feito correntes do cais. A correnteza do meu querer. O pulso do teu foco. Meu pôr de sol mais escaldante. Minha sensação predileta. Nosso encontro. Ver as coisas perderem o foco e tua grandeza diante da minha vontade. Tua beleza fundida em meus suspiros. Todo azul do mar nos teus olhos. Minha sede, meu encanto. Este amor deslizando em mim.

Quinta-feira, 30 de Abril de 2009

...

Engraçado que enquanto te sonho meu sono se torna mar. Em cada imagem que me invades, um novo andor. Sinto-me alado e me perco na pausa de nosso encontro, na interseção de olhares. Percebo-te na levada de um embalo sereno, no aconchego da toada do mar. O momento certo de me afogar sem perder o ar e de me engasgar com teu sorriso. O encontro em que se alcança a perdição por meio de um achado até outrora não visto. O bem querer do teu toque afoito, da pele imersa em doces e justas causas, enquanto almejo-te as conseqüências e me embaraço na tua órbita. O impulso perfeito pra mergulhar no turbilhão do caos e fazer do infinito mero detalhe, já que é diante dos teus olhos que tanto digo sem nada falar.

Terça-feira, 31 de Março de 2009

Janela

Teus olhos são feito portais de madeira cristalina. Com toada de maresia calma e uma leveza de pedaço de céu. De uma transparência tranqüila onde me encontro numa nudez que não me envergonha. Porque se te olho assim como outrora fiz deixo de lado as palavras para não te perder de vista. Assim, sem piscar. Te dizendo com os olhos tudo que me é latente, tudo que me vem à tona enquanto perco o sono e o travesseiro se torna mar. No meu silêncio soando em belting. Na minha melodia que flui em adágios oníricos, em que no quase dormir me debruço ante teus olhos pra me embrenhar em tuas nuvens. Teu encanto já se tornou meu vício. E eu, sem sequer me dar conta, me abandono nesse teu brilho sereno, porque adoro seu jeito de sorrir com os olhos, e quando nossos sorrisos assim, repentinos, se encontram. So(u)-rio. Reverbera em mim todo o frescor de uma semente que se aconchegou e se põe a germinar no lugar que já é teu. Daí não tem jeito. Você se mostra em versos:

Que é o medo
Se tua alma é luz
Se teu brilho é calma
Se meu olhar é rio?

Que é o acaso
Se te alcanço o foco
Se teu olho é mar
Se me acertou em cheio?

Um tudo que cresce.
O todo flutua.
Um toldo me cerca
De alcance e paz.

Te entrego a vírgula
Te mostro dois pontos
O meu exclamando
E o teu reticente.

Terça-feira, 24 de Março de 2009

Agridoce

Cretino absurdo
De ti me encarrego
Se tanto aconchego
Me traz teu luar.

Mal visto desterro
Meu sangue assassino
Tua vida no bolso
Me faz desenhar.

Bem pardo teu traço
Tão cheio e distante
Te vingo aqui dentro
Me jaz sem parar.

Distinto andarilho
Se arrasta arredio
Com verso agridoce
Me faz ser-te um mar.

Estranho teu rosto
Ameno teu cheiro
Me entrego inteiro
Me amaste o ar.

Tão doce teu riso
Me aceita o teu gozo
Bendigo o teu ventre
Me dá teu rasgar.

Sábado, 7 de Março de 2009

Alado

A estrada é nada. Da janela do ônibus, dou um salto que acompanha o vento e a estrada é nada. Caio na roda de um sonho breve e faço bricolagens de minha lembrança: você. Sinto-me espalhar em um horizonte em que um piscar de olhos se torna alçar de vôos. E se regresso ao ponto de partida, faço-me pêndulo, já que o salto nas minhas inquietudes é arbítrio assim, tão eu: refúgio em que me vejo percorrendo alamedas e contemplo acácias, esquecendo quem sou, onde estou e aonde vou chegar. Apenas me achego. Sinto, por fim. Nada que me quisesse estocar a sensação de um bem querer do seu sorriso doce me tiraria de... Nem me faria me desvencilhar de... já que um tudo reverbera em. Eu, pensamento. Criando raiz nas névoas e suspiros calados. Semeando verso e percorrendo o céu, enquanto meu corpo segue ali, no trajeto de um lugar pra outro que não importa, porque essa matéria em movimento é só um ponto que ocupa um lugarejo do espaço. Meus devaneios são um mundo. Meu pesar de alma é um céu. Pra lhe fazer gaivota acima dessa minha cabeça alada que me leva pra longe. Pra te evocar no mundo que eu contemplei sozinho. Pra me situar onde me perdi na estrada. Pra lhe entregar um mar e fazer deste um pingo de céu. Ser-lhe o ar. Infinitamente assim: fora do eixo.

Domingo, 1 de Março de 2009

Catavento

Claro esvai
Ao vento reluz
Vida caminha
Eu, sereno
Deságuo adentro
Tão mar que sou
Cato o vento
Escondo o escuro
Você é feliz?

Claro desvala
A alma se limpa
Assento no brilho
Eu, todavia
Me seco aqui mesmo
Tão canto que sou
Cato o vento
Manejo entre linhas
Você é feliz?

Claro apoplético
Ao som que acompanha
Tremula o infinito
Eu aconteço
Vambora, que eu guio
Tão lindo que sou
Cato o vento
Respiro bem fundo
Você é feliz?

Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2009

Regresso

Perdoa-me. Em tantos compassos te fui silêncio. Percebi teu estado de suspensão, esperando que meus lábios se mexessem pra cantar teu sossego, e tudo que eu fiz foi te entregar um buquê de pausas que outrora guardei no bolso. Meu tempo tem sido regado a reticências e minha pulsação sobrevive à base da brisa provocada por teus braços, que tantas vezes tentaram incansavelmente orquestrar a enarmonia que ainda jaz em nós. E na minha tolice sequer me movi pra te ajudar a desatar os acordes que permaneceram retidos no peito. A vida me anestesiou de tantos perfumes, e tudo que eu quis ouvir nos últimos tempos foi a cadência mórbida de um canto sombrio. Arrependo-me tanto de não te ter entregue meu ponto final. E o que agora vejo são apenas ritornelos, que nos conduzem sempre ao ponto de partida. Regressamos ao mesmo tom, ao mesmo desejo, e nas águas de tua lírica eu volto a me abandonar:

Encontrando um lugar de aconchego
Em que descanso e te sinto o mar
O reencontro sem tom de adeus: acalanto
Vem me embalar na tua cantiga de bolso
Que eu não devolvo as notas emprestadas ontem.

Arrisco melodiar-te os versos
Semitonando meus tropeços na tua valsa
Enquanto insisto em salmodiar-te em três por quatro
E te alcanço o agudo pleno ao nosso jeito
Se me sustentares neste ar de primaveras.

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Este texto é fruto dos versos de Tamires em Um sonho, a dois. E é com muito gosto que dedico as palavras de minha personagem ao eu-lírico dela. Obrigado pela inspiração, moça! Beijos muitos,

Ziggy